quarta-feira, 14 de março de 2018
SOMOS NOVE
Fomos seis, enquanto aqui e agora somos nove
Fomos e somos nós, em nós o nosso eu de sempre
E ao partir, qualquer de nós, para além do ventre,
ainda assim estaremos nós em nós, eternamente,
pois os que ficarem, somados em si, em si somados,
manterão pura, cativa da lembrança que comove,
a magia de tornar vivos entes queridos ausentes.
Da partida far-se-á a vinda de outros nós, amados,
revivendo em nós o que foi presente, ora passado
e, mais adiante, o mais importante, seremos mais,
do que nove, quem sabe mil, quem sabe decimais
dos tantos idos, dos tantos tidos, dos tantos vindos
dos tantos nós então presentes, então sorrindo,
nutrindo em nós o que nós fomos, então passado...
quarta-feira, 27 de dezembro de 2017
DESALINHO
DESALINHO
Ei-la parada, à frente de insensível estrada
Reta, bem além do adiantado lume,
Enquanto isso a luz cede seu brilho,
Por sobre os sinuosos trilhos dos ciúmes
E quimeras, mais do que tuas ou das feras,
Vestindo os flocos multicoloridos
De pães, de circos e do meu abrigo
Buscados em outros sonhos, não vividos.
Ei-la, de novo, em sua mão joia vertida
De íngremes espaços não imaginados
Faz-se presente, sendo presente do passado
Dando mais que a vida à vida, minha vida
Ressuscitada em caminhos e destinos
Guardados em meus próprios desatinos
E nos meus sonhos, até agora, a força vã
Que me impele, sempre, ao teu amanhã.
Ei-la parada, à frente de insensível estrada
Reta, bem além do adiantado lume,
Enquanto isso a luz cede seu brilho,
Por sobre os sinuosos trilhos dos ciúmes
E quimeras, mais do que tuas ou das feras,
Vestindo os flocos multicoloridos
De pães, de circos e do meu abrigo
Buscados em outros sonhos, não vividos.
Ei-la, de novo, em sua mão joia vertida
De íngremes espaços não imaginados
Faz-se presente, sendo presente do passado
Dando mais que a vida à vida, minha vida
Ressuscitada em caminhos e destinos
Guardados em meus próprios desatinos
E nos meus sonhos, até agora, a força vã
Que me impele, sempre, ao teu amanhã.
CELEBRAÇÃO (Ao amigo Alvarino)
O céu está em festa desabrida
A pessoa que lá chegou sorrindo
É a pureza no seu estado mais lindo
E não devemos chorar a despedida,
Quem sabe, honrar o seu legado,
Por sua luz nos ter iluminado...
Fizeste o bem Alvarino amigo,
E só por isso Deus quer ficar contigo.
AS LEIS DO TRUCO
Como já foi contado e recontado, o moleque nasceu em Uruguaiana, Rio Grande do Sul, Brasil e teve uma infância deveras marcante; também, especialmente no continho “No fundo do copo”, informou sua constante andança e peregrinação à casa de jogos de azar do “Seu” Emílio, marido da D. Mariquinha, pais dos amigos Saul Adair Inzabralde, o “Quico” e de Luiz Alberto Inzabralde, o “Gurizote” ou “Zote” como era chamado por todos e de outros como o Anadir, o João, o Zeca, o Toninho (caçula), a Cema (moça, bonita), e as meninas Marisa e Cleusa, a prole de nove filhos.
Dita “casa de jogos” era conhecida como a sede do “Clube Sete de Setembro” e se localizava na Rua Sete de Setembro, onde nascera o moleque, esquina com a Rua Quatorze de Julho, nela instalada e funcionando, além de “cancha de bochas” visível e transparente eis que jogo legalmente permitido (tanto que foi admitido como “esporte”), os proibidos jogos de azar, como os de cartas no geral desenvolvidos em local denominado “carpeta” pelos iniciados, como também o “Jogo de Tava” ou “de Osso” como chamam na capital Porto Alegre, tendo, todos esses jogos, em comum, a realização diária, diurna e noturna, em locais escondidos, disfarçados e respectivamente preparados, com seus participantes, chamados pelos “de fora” como “calaveras”(*), os viciados em jogos que deles fazem exercício em manifesta doença, os profissionais que deles retiram sustento, ambos os tipos, especialmente os primeiros diga-se, vivendo e sobrevivendo no fio da navalha do acaso e do risco.
(*) calavera: vocábulo espanhol que significa “caveira” é utilizada na fronteira do Brasil designando o jogador profissional, acrescentando ao significado da palavra quase homofônica, calaveira (com a letra “i”), do nosso português, usada no sul, que define o indivíduo como caloteiro, velhaco, vagabundo.
O vício do jogo de azar, parece, é quase incurável; as incertezas da vida, como n’um passe de mágica, tornam-se passíveis de realização positiva, na obtenção de vantagens e do sucesso, indizíveis, tudo ao alcance do gesto e atitude do jogador. Quando acontece “perdas” ou “ganhos” em diversas “rodadas” se dizendo “sem” ou “com sorte”, respectivamente, em quaisquer dos casos seguirá impelido a continuar jogando, para buscar ou para manter a sorte de que se acha (des) ou possuído. Em qualquer circunstância, aliás, o viciado continuará jogando até que não lhe reste mais nada para apostar ou condições de cobrir apostas de outrem. O moleque viu jogadores perderem até cavalos aperados, encilhados com esmero, que amarrados no palanque, tronco onde se prende o potro para o encilhar, fora da “carpeta”, aguardavam seus respectivos dono e, como a moeda de jogo que se tornariam (seja em lances de “Bacará”, “Pife ou Pif-Paf”, “Vinte e um” e tantos outros mais, como o “Truco” que, no caso, é o jogo de cartas mais intenso, sério, engraçado e divertido tanto para os jogadores quanto para os assistentes acaso presentes e que é a finalidade e mote deste continho), muitas vezes passaram à propriedade de um estranho que vencera o seu agora ex-dono.
Então tratemos disso, inicialmente, da essência e modos do jogo, as cartas e seus significados. Joga-se o “Truco” de “mano” isto é de um contra o outro; de um, ou “carancho”, contra dois parceiros que formam uma dupla; de duplas, dois parceiros contra outros dois; de trio, três parceiros contra outros três; além desse limite tem-se a perda da eficácia e volição do jogo em si, não sendo tão interessante e divertido como nos demais modos.
De “mano” é individual, cada um por si e Deus por ambos; os demais, exceto pelo modo de um contra uma dupla, são parceiros que integram um mesmo conjunto enfrentando outro conjunto integrado por igual número de parceiros. Nestes conjuntos a comunicação entre os parceiros se dá por mímica mediante sinais expressos pelo rosto sabidos por todos, por isso tais sinais são feitos de forma que os parceiros adversários não os vejam quando da emissão. Assim a mais valiosa carta para efeitos da segunda parte do jogo, o Truco propriamente dito, o Ás de Espada, tem sua presença informada ao outro parceiro mediante o “piscar” do olho direito; o Ás de Paus, a segunda carta mais valiosa e que em Uruguaiana é conhecido como “Ás de Bastos”, pelo “piscar” do olho esquerdo; o Sete de Espada, a terceira, pelo repuxar do lado direito da boca; a quarta, o Sete de Ouros pelo repuxar do lado esquerdo; a quinta carta, o Três, de qualquer naipe, pela suave “mordida” do lábio inferior da boca; o Dois, também de qualquer naipe, sexta carta em importância, pelo passar da mão direita como quem cofia a barba do pescoço abaixo da orelha ao queixo. Seguindo a ordem, decrescente, temos os Ases de Ouro e de Copas, as chamadas cartas “negras”, ou sejam, Reis, Valetes e Damas, de qualquer naipe, os Setes de Paus (ou Bastos) e Copas, os Seis e Cincos, de qualquer naipe e, finalmente, as cartas de menor valia que são os quatros, também de qualquer naipe.
O baralho usado para o jogo, é o denominado Baralho Espanhol (também usado para jogar Escova, pelo menos nas suas modalidades mais conhecidas, Escovinha e Escovão) do qual se extrai ou retira às cartas Dez, Nove e Oito, de todos os naipes, totalizando 40 (quarenta) cartas no Jogo de Truco.
BARALHO DO JOGO DE TRUCO
ÁS DE ESPADA ÁS DE PAUS (OU DE BASTOS) SETE DE ESPADAS SETE DE OURO
TRÊS DE ESPADAS-TRÊS DE PAUS(OU DE BASTOS) -TRÊS DE OURO-TRÊS DE COPAS – DOIS DE ESPADAS – DOIS DE
PAUS (OU DE BASTOS) – DOIS DE COPAS – DOIS DE OURO
ÁS DE OURO E ÁS DE COPAS (GOIMES)– REIS, VALETES E DAMAS, DE TODOS OS NAIPES, SETES DE PAUS OU BASTOS E DE COPAS.
SEIS, CINCOS E QUATROS DE TODOS OS NAIPES
OBS: A ordem e disposição das cartas obedeceu o critério da maior importância ou valor de cada uma iniciando pelos Ases (de espadas, o maior seguido pelo de paus ou bastos), os Setes (de espadas, o mais valioso seguido pelo de ouros), passando pelos Três cujo valor é igual para todos os naipes, como também ocorre nos Dois, também os “Goimes”, ou seja, Ases de ouro e copas, que têm maior valor do que “Negras ou Figuras”, do que os Setes de paus ou bastos e o de copas, que os Seis, os Cincos e os Quatros de qualquer naipe. Nas “Negras ou Figuras”, entre si guardam hierarquia iniciando pelos Reis que valem mais do os Valetes e estes, por sua vez, valem mais do que as Damas. As “Negras ou Figuras” representam 20 (vinte) pontos na contagem do “Invido”, “Real-Invido” ou “Falta-Invido” se acompanhadas de cartas, de mesmo naipe seu; “Negra ou Figura” com “Negra ou Figura”, forma vinte pontos; com Áses, forma vinte e um e assim por diante até aos Setes, quando formam a pontuação máxima, no caso, de vinte e sete; na etapa dos reptos e blefes mais enfáticos, de “Truco!”, “Retruco!” ou “Vale-Quatro!!!”, a segunda etapa propriamente dita, que ocorre após vencida a etapa dos “Invidos”, ou “Faltas”, ou da “Flor”, todas as cartas, incluindo as “Negras ou Figuras”, claro, destacam-se pelo valor a elas atribuídos, conforme acima detalhado.
Voltemos, todavia a descrição do jogo e seu andamento. No início, do jogo e a cada vez que o mesmo se reinicia por uma nova “mão” após o final da anterior, aos jogadores (de “mano” ou em conjunto de parceiros), são dadas três cartas para cada um; na primeira parte, se as três cartas são de mesmo naipe formam a “Flor” que valerá três pontos ao possuidor, todavia se o adversário também tem “Flor” deverá informar a todos e efetuar o repto de enfrentamento “Contra a Flor, o resto!” vencendo aquele que tiver maioria na contagem dos pontos pela soma das cartas integrantes da “Flor” (Às cartas, os pontos são assim atribuídos: dos Áses aos Setes, independentemente de naipes ou importância, seus pontos são idênticos ao do respectivo número da carta, isto é, os Áses valem um, os dois, dois, os três, três, etc, juntas, entretanto, formam total acrescido de 20 pontos, e na “Flor” a pontuação máxima é de trinta e oito pontos (quando a “Flor” é composta pelas cartas de mesmo naipe, Cinco, Seis e Sete); as ditas cartas “Negras ou Figuras”, qualquer delas, independentemente dos naipes, somam vinte pontos cada uma. “Cantada” a “Flor” ela deve ser comprovada ao final da “mão” respectiva, sob pena de entregar ao adversário os pontos que lhe seriam creditados, acrescido de mais um ponto a título de multa; de outro lado, nenhum dos contendores pode, com as cartas na mão, sequer falar em “Flor”, pena de, não a tendo, pagar os pontos e multa ao adversário. Falou em “Flor”, para tudo! Estanca, evita a possibilidade de se desenvolver o “Invido” (*) e, mais ainda, suas possíveis e cabíveis sequências como o “Real-Invido” (**) ou a “Falta-Invido” (***) que tem a capacidade de finalizar o jogo como um todo, em uma só mão. Assim, por exemplo, diz-se da “Flor” formada pelas cartas Cinco, Seis e Sete que é uma “Flor” de Trinta e Oito pontos sendo esta a maior pontuação que uma “Flor” pode alcançar. À “Flor” do naipe de copas, se diz, “de abóbora” porquanto as cartas de copa não tem grande valia à segunda parte do jogo, a do “Truco” propriamente dita. Nos casos de “Invido”, “Real-Invido” ou “Falta-Invido” o maior número que se alcança é o trinta e três formado por sete e seis de qualquer naipe (saliente-se que cartas do um ao sete, com qualquer das cartas “negras”, do mesmo naipe, forma o total de vinte mais o número da carta); ainda, diga-se que o “Invido”, o “Real-Invido” ou a “Falta-Invido” podem ser individualmente invocado por qualquer jogador, cada um a sua vez (o “Mão”, ou o “Pé” da “mão”, se aquele ou outros não o invocaram antes), não guardando preferência ou dependência de comando entre um e outro, isto é, o jogador pode iniciar por qualquer deles, valendo a negativa ou não aceitação de qualquer dos oponentes, um ponto para o proponente.
(*) “Invido”: vocábulo espanhol que significa convite, exortação; (**) “Real-Invido”: toque de realeza e relevo ao Invido; (***) “Falta-Invido”, plus de exortação à finalização do jogo, cartada de tudo ou nada.
Com relação a contagem de pontos, o “Invido” vale dois pontos ao vencedor se proposto e aceito pelo oponente; não aceito, cabe um ponto apenas ao proponente. O “Real-Invido”, vale três pontos ao vencedor, todavia poderá ser repto dado pelo oponente que recebeu a proposição do “Invido”, daí, acumulando, vale cinco pontos ao vencedor: à hipótese de não aceito pelo proponente do “Invido”, o agora proponente do “Real-Invido dado em resposta àquele, ganha três pontos sem necessitar mostrar as cartas ao final da mão; no “Quero!”, cabendo, ainda e neste caso, ao proponente original colocar, ou não, o repto “Falta-Invido” que também pode ser aceita, ou não; se aceita, o perdedor deve exigir do vencedor que comprove os pontos que disse ter porquanto a “Falta-Invido” finaliza o jogo e por isso os pontos ditos tidos devem ser mostrados, no ato, todavia se não aceita a “Falta-Invido” assim proposta por sobre o “Real-Invido” que, por sua vez, fora proposto por sobre “Invido”, o proponente final obterá cinco pontos sem necessitar mostrar suas cartas ao final.
A “Falta-Invido” pode ser proposta desde o início, antes até do “Invido” puro e simples e, à hipótese de sua nâo aceitação, ao proponente caberá um ponto; aceita, o vencedor ganhará o jogo como um todo, exceto quando em jogo de duplas ou trios os jogadores tenham estipulado ao início do jogo, sua formatação em duas “Faltas-Invido” e, neste caso, a contagem final dos pontos totalizará, 18 (dezoito) pontos, com cada “Falta-Invido” valendo 9 (nove) pontos.
Vencida a primeira etapa da mão considerada, ingressa-se na segunda etapa, pela aposição de carta pelo “Mão”. Caso o jogo seja entre dois contendores, chamado “de mano”, tanto o “Mão” que é o que recebe a primeira carta, quanto aquele que distribuiu as cartas, denominado “Pé”, em maioria de vezes jogam sua melhor carta para realizar o que se chama de “Primeira” que será fundamental à hipótese de que o perdedor se recupere na Segunda fase dessa etapa e resulte empatada a Terceira, vencendo então aquele que “fez a Primeira”. Caso o jogo seja de duplas ou trios, etc, quem distribui as cartas sempre será o “Pé”, todavia apenas para o seu parceiro que para ele será “Mão”, enquanto aquele “Mâo”, que as recebe inicialmente, terá o seu parceiro como “Pé” para si; neste caso, ambos os “Pés” chamarão a si a responsabilidade de realizar a “Primeira” lançando sua mais valiosa carta, todavia se não a tiver entre as recebidas, informará ao parceiro ou parceiros tal situação mediante um discreto “fechar dos olhos” obrigando o “Mão” buscar a solução para o problema, quase sempre descartando sua mais valiosa carta.
Nesta etapa, os reptos são “Truco”, “Retruco” e “Vale Quatro” com o primeiro valendo dois pontos ao ganhador quando aceito pelo oponente e se não aceito valendo um ponto àquele; a resposta do oponente poderá ser não, valendo um ponto para o proponente, ou “Retruco” aumentando o valor dos pontos em disputa para três; o proponente original poderá ou não aceitar o contrarrepto, se não aceitar o agora proponente, final, ganhará dois pontos; caso o proponente original queira ir além da aceitação do “retruco” ele lança o repto do “Vale Quatro!” com um sonoro “Quero Vale Quatro!”, que, como o próprio nome indica, vale quatro pontos ao ganhador além do grande abalo moral que causa ao perdedor que tem que oferecer sua testa à aposição de quatro dedos do ganhador que, simbolicamente, os “grudará” ou “colará”, em imediato gesto, na parede, nela ficando gravada “p'rá sempre” sua “vitória” incontestável, seguida de muita pilhéria e gozação ao infeliz perdedor. Por isso, perder um ‘vale quatro” tem um significado marcante, acachapante. No caso de não aceito, caberá ao proponente, agora original e final, três pontos.
O “Quero!”, por isso tudo delimita singularmente o exercício pleno e continuidade dos reptos. Sem o “Quero!”, se esboroam pretensões à sequência do jogo pelo proponente que tem que se contentar com os pontos que obterá pelo não do oponente, pontos estes sempre inferior àqueles pontos oriundos de uma vitória que poderia ser alcançada, sem esquecer que, como um jogo de blefes, a mentira de um pode assustar o outro fazendo-o “correr da raia” por pensar que o proponente, tão seguro que está, tem cartas e condições melhores que as dele... e nem sempre, alíás, quase sempre, não é assim... Enfim, coisas e ocorrências derivadas de um jogo muito “esperto”, “sagaz”, onde a astúcia e a dissimulação quase sempre vence, mas sempre fazendo parte do “enredo” e premiando quem a desempenha com maior eficácia...
Em verdade o moleque não era nem chegou ser especialista do “Jogo de Truco” e por isso, encerra no “Vale Quatro!” a dissertação sobre o que sabe a respeito, todavia, por ser observador e curioso, dele recolheu ensinamento e filosofia que perpassaram sua trajetória e caminhos que seguiu como a pessoa que se tornou e que serviram de grande proveito à formação de sua personalidade. Da observação exercida naqueles tempos, naquele ambiente, dos ditos, dizeres e reptos cantados, gritados até, pelos jogadores lhe restou como moldura, quase pagã, lembranças que, analogamente transferida, ressuscitada para o cotidiano de sua vida, como uma “colagem”, deu-lhe parâmetros, princípios que, entendeu e pratica, basificam e norteiam seu procedimento e postura qualificando tudo isso como “As leis do Truco” que, pensa, acata e obedece, com seus artigos, determinações e procedimentos principais que ensina, finalmente, infra são apresentados, crendo-se de forma abrangente, capaz e coerente com os princípios e cânones morais dos mais elevados e as necessidades existenciais dos justos que entende, por ela, são supridos. Então, partindo-se do pressuposto que a vida, único presente “de graça” que recebemos (no dizer do poeta Moacyr Franco, na canção “Pedágio”, só se vive mesmo nove meses pois o resto a gente morre), é um mistério divino e indiscutível atestando que o milagre existe (qualquer um de nós é um milagre somente pelo fato de estar e continuar vivo sem saber, como, porque ou até quando), pode se obter, sem qualquer dificuldade, por analogia, lições, filosofias, posturas, continuidade e exercícios virtuosos, oriundos de impensáveis fontes, como aquelas praticadas, gritadas, vocalizadas no “Jogo do Truco” que, para o moleque formaram mosaico natural de leis para serem cumpridas, seguidas e praticadas no curso da vida.
AS LEIS DO TRUCO
I – A PRIMEIRA EM CASA, O RESTO NA RUA!
Significado Bruto (Para o Jogo):
Jogar a carta de maior valor, ainda que seja a única de valor que se tenha na mão, porquanto fazer a “primeira” é importantíssimo ao desenvolvimento e estratégia do jogo para o(s) jogador(es).
Significado Bruto (Para a Vida):
À casa, ao lar melhor dizendo, é primordial em relação a todo o resto; somente após totalmente atendidas suas necessidades, materiais e/ou imateriais, é que poderá o(a) provedor(a) distribuir à rua o que restou.
II – O QUE CUSTA, VALE!
Significado Bruto (Para o Jogo):
Para fazer a “primeira”, por exemplo, jogar a carta de maior valor que se tem na mão, ainda que se fique apenas com cartas inexpressivas à sequência do Jogo.
Significado Bruto (Para a Vida):
Deixar ir ou entregar os anéis para preservar os dedos (que valem muito mais do que aqueles).
III – NÃO TE CASES COM CARTAS!
Significado Bruto (Para o Jogo):
Não fraquejar perante a imperiosa necessidade de sacrificar uma carta importante à obtenção do objetivo principal que é a vitória final.
Significado Bruto (Para a Vida):
Não se fanatizar por nada, perdendo o raciocínio e a lógica, reais bênçãos da vida, em nome de um pretenso bem finito ou não, todavia sempre envolto em mistérios que tornam os iniciados em “profetas” e os seguidores em “otários”, enfim, seguir falácias brilhosas sem ser, jamais, brilhantes; nada é mais importante do que tu ou do que tua vida sendo vivida para ti, sem jamais esquecer os outros.
IV – VOU QUERER NÃO É QUERO!
Significado Bruto (Para o Jogo):
Diante de reptos (truco, invido, etc.) do proponente, o oponente usa o artifício malandro da expressão “vou querer” para enganar àquele, que “cai” ou não no golpe; se o proponente ganhar, no caso, não tem valor... A chave para validar a proposta e resultado dela é positiva, sempre, valendo para tanto somente a expressão “Quero!”.
Significado Bruto (Para a Vida):
“Se queres o céu e te contentas com a terra, então, não queres o céu” é um pensamento repetido nas contracapas dos livros de poemas “Metamorfose”, “Ponto e Vírgula” e “Bolinha de Vidro” todos do poeta Itagiba José, que diz tudo sobre a persistência e teimosia em busca daquilo que realmente se quer. O sonho estampado no “Vou Querer” só será “Quero!” se realizado e para tanto é preciso ser persistente e teimoso, um lutador que sabe interpretar, vivenciar e dar valor a sentença “Desistir é a saída dos Fracos! Insistir é a alternativa dos Fortes (do filme “Mãos Talentosas” - homenagem ao médico Neuroligista, Dr. Ben Carson).
V – O QUE É DA ÁGUA, A ÁGUA LEVA!
Significado Bruto (Para o Jogo):
Sentindo a iminente queda o jogador reproduz mantra prevendo, antecipando a derrocada e, na prática, a aceitando ainda que mantenha um fio de esperança na possibilidade de evitá-la.
Significado Bruto (Para a Vida):
A aceitação serena diante do inevitável torna menos dolorosa a perda e mais fortalecido o perdedor, todavia e ainda que se esteja diante do impossível manter acesa a luta, a insistência, a chama da esperança que faz parte do melhor da vida até mesmo quando a água a reclama de volta para si.
VI – SOU PÉ E GARANTO (SOU BASE E SEGURANÇA)!
Significado Bruto (Para o Jogo):
O “Pé” é o alicerce, quem comanda o andamento do jogo e último baluarte tem a responsabilidade de proteger, dar segurança ao(s) parceiro(s) e fazer fluir, da melhor maneira possível, a estratégia adotada àquela “mão”, pelo “Mão”.
Significado Bruto (Para a Vida):
O “Pé” é o líder que comanda familiares, amigos e tantos outros que integram o círculo de conhecidos servindo de exemplo, conforto, refúgio e segurança para todos que nele se apoiam e orbitam, atingindo, muitas vezes sem o saber, até mesmo terceiros, desconhecidos.
VII–SOU MÃO, ENFRENTAMENTO E ESTRATÉGIA
Significado Bruto (Para o Jogo):
O “Mão” inicia o jogo, pela análise de suas próprias cartas e/ou das informações que recebe do(s) parceiro (s), via senha, vai endereçar seu andamento contando com a segurança que cabe ao “Pé” emprestar ao(s) parceiro(s).
Sinificado Bruto (Para a Vida):
Transita-se pela vida por sinuosas trajetórias, altos e baixos, em momentos de paz, de júbilo, de intensa alegria, vitórias, entrecortado e, às vezes, dilacerados, por outros totalmente opostos. O que é ou deve ser considerado pela pessoa constante, é a presença de amigos em todos os momentos, não importando quais; quem tem um amigo que seja tem o maior dos tesouros que se pode almejar. O problema se torna grave quando por vaidade ou estultice, enquanto vencedores, nos tornarmos prêsa fácil à sanha de predadores travestidos de “amigos” que não se apresentam com sua verdadeira identidade... os primeiros a deixar o navio quando este está prestes a naufragar são os ratos... os verdadeiros amigos são os que ficam conosco durante a borrasca e nos incentivam a acreditar que apesar de tudo, o sol está sobre as nuvens e logo adiante raiará mais uma vez, se é que assim o merecemos... Como o “Mão”, desenhas os rumos e objetivos de tua vida, tenhas a sorte de encontrar o “Pé”, teu amigo, sempre a postos para te socorrer, não esqueças, porém, que quando for chamado, deves socorrer quem de ti necessita... O amor é de graça, as boas ações que nele germinam produzem sorrisos, momentos felizes que valem bem mais do que qualquer bem material que possas alcançar...
VIII – FEIO NÃO É PERDER, SIM FUGIR DA RAIA
Significado Bruto (Para o Jogo):
Proposto o repto (qualquer deles) o oponente, pelos mais diversos motivos (sem cartas de valor, pontos, ou porque entende que o rival está bem “calçado”, etc) não o aceita e, pelo “Não!”, não enfrenta o adversário e dependendo da forma ou entonação do não pode deixar impressão desagradável de ter “fugido da raia!”.
Significado Bruto (Para a Vida):
No curso da existência, por várias vezes, nos vemos em situações dificeis que nos fazem tomar decisões mais dificeis ainda para contorná-las. Perder, ganhar, empatar, fugir, se amedrontar ou não, faz parte do show por nós vivido como protagonistas... Devemos, sim, ser como a água que contorna os obstáculos enquanto isso não nos traga o sacrifício ou a quebra de nossos princípios que, se atingidos, nos devem fazer lutar por eles mesmo que seja a última coisa que façamos, afinal “O que custa vale” e não devemos “nos casar com caras” ou ainda e finalmente, sabemos e como sabemos que “o que é da água, a água leva!”.
EPÍLOGO
TEM E TERÃO OUTROS ENSINAMENTOS ESCRITOS E/OU GRITADOS DURANTE O “JOGO DO TRUCO”, INCLUSIVE OS TRAZIDOS POR PUERIS, SINGELOS VERSOS, COMO OS QUE ANUNCIAM E FALAM DA FLOR QUE ENCANTA O POSSUIDOR “Eu tenho uma vaca mansa, forte e mimosa vaca mansa, que dá dez litros de leite, mas é FLOR de vaca mansa...” ... “FLOR E TRUCO! FLOR E TE CORRO!...”... Ou aqueles outros, de um pobre, transitório, chamado “carancho” que despossuído de sorte perdeu tudo, nada tem, mas espera que o ganhador e sortudo da vez, lhe estenda, doe, algumas fichas que vai pacientemente juntando e bem assim, de migalha em migalha, juntadas, forma pequeno montante que lhe trará de volta para o jogo, o que aliás é seu objetivo... E a vida passa por entre a sorte de uns e o desespero de outros... das mãos do “crupiê” as cartas são jogadas ao acaso e que vença quem ainda tiver forças e oxigênio para realizar esperanças (o que aliás é a sina de todo o ser humano)...
Itagiba José
segunda-feira, 9 de outubro de 2017
OUTRA DO MOLEQUE: LEDA, UMA HISTÓRIA DE AMOR
Distraído mas de passos apressados o moleque, de 10 (dez) anos, não mais que isso, descia a Rua General Câmara, na querida cidade de Uruguaiana, na fronteira do Brasil com a Argentina e com o Uruguai (por isso denominada de “Sentinela da Pátria”), dirigindo-se ao campo do “Duque” onde outros guris já estavam jogando bola; ao passar na frente de uma casa, dela saiu uma guriazinha, de não mais do que 9 (nove) anos, com carinha de sete, que lhe perguntou de sopetão: “Tá* indo p’ro* Duque?” - Sim! - afirmou, “Conhece* o meu irmão, Baltazar?”, “Sim, conheço o Balta!” ao que ela emendou, “Então, diz que a mãe tá *chamando ele, agora!”.
Missão recebida, assim, e daquela belíssima fonte, claro que tinha que ser cumprida e o foi. A única dúvida do moleque que persistia era com relação a guria que achou ‘muito mais nova’ que ele (que se achava, no mínimo, ‘quase’ um adulto) e certamente não valeria a pena ‘bater asas’ por ela...mas que a guria era linda, muito linda, isso era... e como!
(* sic)
A guria era encantadora, tinha a voz aveludada como um sussurro de prece, os olhos claros da cor do mel, os cabelos compridos abaixo dos ombros, da mesma cor dos olhos, castanhos claros como um raio de sol que chega por entre nuvens brancas pardacentas e a pele clara envolvida em luzes etéreas que mostravam sua própria alma onde resplandeciam inocência, candura, meiguice e ternura, fontes de seu inexcedível e natural perfume...
Embora fosse criança, uma linda mulher em formação, sabe-se lá como (com a devida licença poética, requerida pelo contador dessa história), certamente foi ou seria a mulher/deusa, inspiradora do grande ‘Poetinha’ Vinicius de Moraes que como um prestidigitador, ilusionista, no verso romântico a anteviu como adulta, antes de sê-lo, desnudando-a inteiramente no belíssimo Poema “Receita de Mulher”...**
(** poema reproduzido, in fine)
A guria se chamava Julieta, nome dado em homenagem a avó materna e, certamente por ser muito alegre e sorridente, a apelidaram de Leda; o guri, todavia, não se chamava Romeu, embora, desde aquele fortuito e precoce encontro viessem a escrever uma bela história amorosa, vivida intensamente e sempre durante toda a vida e, quem sabe além dela, ainda que as vicissitudes, percalços e desacertos tenham impostos caminhos diversos para que cada um os percorressem, levando o outro dentro de si, na lembrança, na saudade, no limbo, avessos e cruezas dos cotidianos solitariamente tidos, vicissitudes e tristezas de serem tão próximos e fisicamente estarem quase sempre, tão longe, também e mesmo assim levando consigo bons, serenos e mágicos momentos que juntos comungaram e vivenciaram...
Dois dias depois, quase a mesma hora daquela tarde em que fora interpelado, o guri descia a mesma rua e igual objetivo ou destino, quando passava pela mesma casa e dela sai a guria de imediato se dizendo agradecida pelo guri ter atendido ao pedido que fizera. Também portador da inocência própria das crianças, o guri timidamente balbuciou um “não tem de quê” e já estava reiniciando a trajetória quando a guria lhe perguntou se, de novo, estava indo “p’ro* Duque?”. À resposta afirmativa, ela engatou outra pergunta, agora mais pessoal, “Como é teu nome?” Dada a resposta, ela emendou, agora uma constatação “Ah, sei, tu mora* perto da casa da vó* e é de lá que eu te conheço... tu brinca* ali no açude com todos os guris e gurias de lá... não sei se tu te lembra* eu sou aquela guria que brincava, com os pé* dentro d’água sentada na barranca do açude**, no verão passado quando tu chegou* com teu cachorro e outros guris...”. O guri meio sem jeito, respondeu que não se lembrava disso até porque praticamente todos os dias brincava no açude... “É, mas naquele dia tu primeiro trepou* na figueira, depois foi no pessegueiro, comeu figo e pêssego verde e ainda arrematou com laranja, verde também, sem medo de que te fizesse* mal...Porque tu come* fruta verde e não espera ela amadurecê?*... ah! como é mesmo o nome do teu cachorro escutei tu chama* ele e gostei do nome só que esqueci?”, O guri falando um pouco mais alto, respondeu às perguntas com exemplar sinceridade “Eu como frutas, verdes, porque ninguém espera elas amadurecê* e as comem logo, logo, então... meu cachorro se chama Flopes e eu também gosto muito desse nome pois foi minha vó quem deu p’rá* ele e até o amestrou para mim... E o teu nome, qual é?...” A guria disse-o e o guri completou que agora lembrava-se dela, daquele dia, brincando com os pés na água do açude** o que jamais esqueceria, e que a conhecia por Leda e embora ambos nomes fossem bonitos este era mais e era assim que iria sempre chama-la, pondo fim a conversa pois uma pessoa adulta deles se aproximava, seguindo para o campo do Duque.
(* sic) – (** do poema “Estática”, reproduzido in fine)
O guri era encarregado de buscar o leite da mamadeira de sua irmã no “tambo” de leite do “Seu” Madeira cuja localização era mais ou menos a um quilômetro de sua casa e cumprir a tarefa lhe custava o tremendo sacrifício de se levantar cedo, o que diariamente lhe trazia problemas com sua nem sempre pacienciosa mãe. A partir do evento referente a guria dos olhos de mel, para surpresa de sua mãe, ele começou a se levantar mais cedo e sem que ninguém o acordasse, para ir ao “tambo”...a única coisa, intrigante, era o fato de que agora, saía mais cedo e demorava mais tempo para voltar. Ocorre que o guri, tanto na ida ao “tambo”, quanto na volta, realizava uma espécie de cotovelo no trajeto, passando na frente da casa da guria querendo vê-la e, com isso, aumentado o trajeto em mais 1,5Km (um quilômetros e meio).
Duas vezes o fez sem que a visse até que, à tarde, seguindo para o campo do Duque, lá estava ela, como se o aguardasse... em meio a rápida conversa mantida por ambos, ele informou suas idas pela manhã ao “tambo” e passagem à frente da casa dela, sem vê-la... com aquela carinha de anjo que sempre apresentaria para ele, informou-lhe que certamente estava dormindo quando, pois não gostava de se levantar cedo, mas se ele dissesse a hora, ela esperaria sua passagem.
N’outro dia, lá estava ela à frente da casa e ambos saíram, em passos lentos, a caminhar por entre as árvores daquela rua que, para ambos, se tornaria uma alameda encantada, que se localizava, como divisa, entre a área conhecida e denominada como “Chácara do Dr. Sérgio” e os fundos do Seminário. Dita rua ou alameda era ladeada por inúmeras árvores cujas copas, no alto se entrelaçavam formando uma espécie de túnel verde deveras bonito.
O tango “Caminito”*** magistralmente interpretado pelo grande e maior cantor argentino, Carlos Gardel, viria a ser considerado por ambos, mais tarde, como premonitório pois falava de um caminho encantado, como a alameda em que tantas vezes passearam, que o tempo passando e passando sem parar ou perguntar se devia ou podia, se encarregara de apagar, de “borrar”, de...
(*** letra do tango em espanhol e com tradução literal para o português, in fine)
A partir de então o moleque não deu mais trabalho para ir ao “tambo” de leite, levantando-se de pronto ao primeiro chamado de sua mãe que não apenas isso estranhava, também a demora do moleque para voltar com o leite à mamadeira da mana menor; até que sua comadre, Dona Delcira, a “fofoqueira” que morava em frente à alameda encantada, divisa entre os fundos do Seminário e um dos lados da “Chácara do Dr. Sérgio”, acabou com o mistério contando que o moleque tinha uma namoradinha que abraçada nele passeava na alameda, pela manhã de quase todos os dias e, embora inocentes crianças, demonstravam muito afeto. A Dona “fofoqueira” adiantou ainda que assistira, pela iniciativa da guria que de surpresa avançara por sobre o moleque, quem sabe o primeiro beijo entre ambos.
Na verdade ocorrera o beijo e na forma narrada pela comadre “fofoqueira” e por isso quase que o leite se derrama pelo chão repetindo o caso em que o Jura Gato, tendo trato de “tapufe” com o moleque, tentara “tapufiar” a “funda” ou “atiradeira” dele e este, na tentativa de defesa, se esquecendo do tarro de leite que tinha à mão derramou todo o conteúdo, tendo de ir ao “Seu” Madeira, dono do “Tambo”, para enchê-lo de volta, sem dinheiro, no “fiado”, e aceitando a proposta do leiteiro, fez o “trato” de não mais atirar pedras nos cachorros dele (historinha já contada)... Desta feita, porém, pouco importaria se o leite fosse derramado porque aquele beijo valera a pena e seria recordado e repetido inúmeras vezes e por toda a vida de ambos!
O pai da guria era trabalhador sazonal, comum naquela Uruguaiana rural de então, sendo no mesmo ano, às vezes taipeiro* ou coisa que o valha, cuidando taipas*, controlando o nível d’água em plantações de arroz, outras vezes na época das tosquias, era esquilador, tosquiando ovelhas, tudo pelo interior do município; e, em outras, ainda, trabalhando em Bello Union, no Uruguai, na fronteira com Barra do Quaraí, então distrito de Uruguaiana, para cortar cana de açúcar e, dizem, cuidando-se muito para não ser picado pela Cruzeira – serpente das mais perigosas cujo potente veneno era fatal – comuns em meio ao canavial (aliás, contavam uma lenda para provar a maior letalidade de uma em relação a outra serpente, que dizia: A Cruzeira e a Cascavel conversavam sobre seus ‘feitos’ e atitudes selvagens, tendo a Cascavel dito que quando mordia uma vítima ficava observando-a para ver onde a mesma cairia morta; ao que a Cruzeira respondeu dizendo que, ao contrário, ela não ficava observando a vítima coisa nenhuma, porquanto, após picá-la saía correndo de perto, com medo de que sua vítima caísse morta em cima dela... estórias, estórias...).
(*Taipeiro, trabalhador que cuidava de taipa e do nível da água na plantação de arroz; taipa, obstáculo que impedia a fuga d’água e que junto com a ‘bomba d‘água’, a mantinha no nível requerido pelo arroz).
A mãe da guria, uma mulher muito bonita, enquanto isso, seguia a saga de tantas outras uruguaianenses de então realizando o comércio “formiga”, atravessando todos os dias a ponte internacional que do lado brasileiro se chama Getúlio Vargas e, do argentino, General Agustin Justus, para comprar produtos alimentícios em Passo de Los Libres e revendê-los em Uruguaiana (chamavam esse comércio de “chibo” – que em português é cabrito – e seus praticantes de “chibeiros” ou “cabriteiros”). Enquanto D. Santa andava pela Argentina, o moleque frequentava sua casa visitando sua namoradinha. E assim passaram-se vários e felizes anos para ambos.
Na esquina da casa da guria, em frente ao Bolicho (armazém) Olinda, aquele de propriedade do “Seu” Araci Castelhano, pai da bela Nair, paixão do amigo/irmão do moleque, o Guirland (cuja história, de ambos, já foi contada no continho que tratava de futebol), tinha o Colégio Leão XIII de propriedade do Professor Elpídio de Moraes Gomes, o Leão XIII, em cujo pátio, a noite e a céu aberto, funcionava um cinema que tinha como operador dos projetores o Toninho “Faniquito”, conhecido operador de cinema (que trabalhara no antigo Cinema Ideal que ficava perto do Engenho de arroz, também do Moinho de trigo, na altura da Rua Vinte e Oito, hoje Dr. Maia) que tinha um cacoete nervoso, o de levantar sobrancelhas e o músculo facial repetidas vezes, no mesmo movimento, para o alto, como se estivesse incitando, intimando ou perguntando “O que que há?” para fictício interlocutor, enquanto seu braço direito tremia, em estranho êxtase com movimentos circulares ... Vez por outra pela precariedade da película ou do equipamento ocorriam cortes na projeção e todos creditavam tais fatos ao cacoete do Toninho... algumas vezes quem sabe o cacoete influenciara ou provocara tais cortes, mas hoje se sabe que quase a totalidade das vezes eles se deviam ao equipamento, a troca ou desenrolar dos rolos de celulose que, por ser frágil, se grudava internamente (isso é história que não sei, nem como, contar... nem o moleque saberia, acho!).
Em uma quarta-feira, à noite, a namoradinha junto com suas amadas e confidentes tias Almerinda e Morena (também mulheres muito bonitas, parecendo ser próprio da família tanta beleza) foi ver um filme no tal cinema e disse ao moleque que queria ver a “fita” com ele e guardaria lugar ao seu lado e o esperaria lá dentro; o moleque, como sempre, sem dinheiro para qualquer coisa, muito menos para pagar a entrada do “Cine” tinha de dar um jeito para nele ingressar e não tendo outra saída, fez o mesmo ato, do que era campeão, quando ia aos estádios de futebol da cidade, decidiu pular o muro, aos fundos do pátio, à beira da estrada de ferro que ia de Uruguaiana à Barra do Quaraí na fronteira com o Uruguai, no escurinho, onde a luz do “Cine” não chegava e de lá viria por entre a vegetação até que como por encanto surgisse em meio ao pessoal que se preparava para assistir a “fita”. Assim pensou e executou; ao pular o muro, incialmente por azar e depois viu que foi por sorte, caiu aos pés de Jacutinga, amigo de serenatas de seu pai e que ali estava fazendo um “bico” como vigia do cinema e o moleque não sabia... “Tu, moleque, sempre tu...” disse desconsolado “... E agora? Vou contar para o teu pai, não tem jeito não” – “Ah, Jacu...” ( com perdão do trocadilho chulo, sempre e jocosamente utilizado pelo moleque quando encontrava o Jacutinga que ficava enraivecido com isso) “...não faz isso não... eu só pulei por causa da minha namorada que ‘tá aí dentro me esperando e eu não tenho dinheiro para entrar... faz de conta que tu não me viu e eu nunca mais vou te encher o saco lá na SAMDU - Serviço de Assistência Médica de Urgência* ou nas serenatas, te chamando e berrando o ‘Ah Jacu’, o que eu sei que tu não gosta...”
(* Espécie de SAMU da época, onde Jacutinga era guarda ou porteiro, o moleque não sabia direito o que ele era lá, para o qual havia levado seu amigo Quico com doença venérea, em outra historinha já contada).
Como funcionara com o “Seu” Madeira, na vez do leite derramado pelo “tapufe” do Jura Gato, também “Ah, Jacu” se rendeu ao pacto proposto pelo moleque, não sem antes adverti-lo que, caso viesse a chamá-lo como rotineiramente fazia e que para ele Jacutinga não tinha graça nenhuma, ele contaria tudo para seu pai. E lá se foi o moleque por entre a vegetação e no limiar do escuro viu onde estava sentada sua querida namorada e esperou que as luzes fossem apagadas ao início da projeção que começou com um noticioso, jornal filmado do tipo documentário, contando ocorrências do Brasil, em especial, claro, da Capital Nacional de então, a belíssima cidade do Rio de Janeiro, e se dirigiu para onde ela estava, sentando-se ao seu lado; à pergunta do porquê da demora respondeu dando uma desculpa qualquer pois isso agora, realmente, não importava e, na verdade, exceto por estar com ela, ali, naquele lugar, naquele momento, nada mais importava.
Muito tempo depois, pouco antes de viajar para morar em Porto Alegre onde iria trabalhar e continuar a estudar, então com quatorze anos, na mesma esquina do Colégio Leão XIII, quando esperava sua namorada, foi interpelado pela mãe da mesma que de forma ríspida perguntou “O que tu faz*, aqui, moleque?” obtendo como resposta “Estou esperando minha namorada”, “E quem é tua namorada?”, “A tua filha!”. Aparentemente surpreendida pela resposta dada, a mãe rilhando os dentes “Quem tu pensa* que é para pensar que minha filha é tua namorada... Ela não é p’rá* teus beiços... Eu não gosto de ti, pé rachado...” e o moleque “Pouco me importa se tu gosta ou não de mim, eu gosto da tua filha e ela de mim e é isso que importa e por isso tu nada pode* fazê*”; outras ofensas saíram aos trambolhões da boca daquela senhora que se sentira ultrajada pelo moleque desaforado, afastando-se dali, esbaforida, partejando ira, raios e trovões que, chegando em casa e tendo sido tudo confirmado, desabaram por sobre a filha, na qual deu uma surra e quebrou as bonecas de louça compradas na Argentina, aplicando-lhe ainda um grande castigo, proibindo-a de se encontrar com aquele moleque imprestável, desaforado, desbocado e sem futuro, e a condenando ficar presa em casa de onde somente podia sair acompanhada por ela, a mãe.
(* sic)
Poucos dias antes da viagem do moleque, que a três ou quatro meses não via a namoradinha, aconteceu algo muito triste; “Seu” José, o pai do Sérgio “da Porca” (também personagem de outro continho), estava muitíssimo doente sendo na prática “velado” vivo pois que todos os vizinhos, em seu último dia, compareceram para confortarem D. Nena do inevitável que se aproximava à galope. Também a mãe do moleque para lá se dirigiu, levando-o. Em lá chegando o moleque viu ao longe, vindo da extremidade da área, pelo campo, a namoradinha, acompanhada pela mãe. Rapidamente o moleque se esgueirou por entre o vão da casa à horta e encoberto por uma árvore postou-se no oitão da casa principal. Ela também percebera seu movimento e quando sua mãe ingressou na casa pelos fundos, pela cozinha, ela escorregou para o oitão, onde ambos, sussurrando, quase mudos, se encontraram, se abraçaram, se beijaram. Ela então narrou as peripécias que sofrera, quase chorou ao relatar a quebra de suas bonecas enquanto ele comunicou que estava deixando Uruguaiana por decisão de seus pais, indo para Porto Alegre, para trabalhar e continuar a estudar. Ali, ambos adolescentes, fizeram um pacto, infelizmente jamais cumprido pois o destino, os dados da sorte ou sabe-se lá o que, não permitiram, de que ela o esperaria até o dia em que ele voltaria para levá-la e juntos ficariam para sempre, confirmando para ambos que a vida não tem nada ou quase nada de contos de fadas sobejando em seus meandros toda a sorte de inquietudes, desencontros, imprevistos, sem quimeras ou ternuras.
Porém, naquele momento, ambos estão iniciando suas respectivas adolescências e, nelas, quase tudo é ou foi permitido, inclusive os pueris e inofensivos sonhos naquele outono quase findo... Preocupados, ambos foram à frente da casa para olhar se podiam ficar mais um pouco juntos e o que aconteceu dali em diante foi algo que devia ser entendido como presságio ou aviso das peças que a vida prega para todos os seres humanos. Para quem da frente olhasse a casa, à esquerda ficava a sala, com porta de acesso; à direita ficava o quarto do casal, que tinha uma janela à altura não mais do que um metro, a cama, onde “Seu” José dava seus estertores, estava colocada logo abaixo dessa janela; pois bem, no exato momento em que o moleque colocou sua cabeça para dentro do quarto, sentiu no seu rosto o hálito quente e ruidoso do “Seu” José dando seu último suspiro... Custou alguns segundos para que o moleque se desse conta do que presenciara e até sentira e aquele último sopro de vida lhe assombraria por muito tempo e adiante... seus ouvidos carregariam o som rouco, seu olfato um hálito e calor vindo das entranhas de um nunca mais individual e exclusivo, na face e nos cabelos o gélido vento trazido pela morte que ali se revelara inteira. Concomitantemente, D. Nena jogou-se por sobre o corpo, ainda quente, de “Seu” José, inundando-o com o convulsivo pranto trazido pela inevitável perda... Então e por isso, o moleque afastou Leda protegendo-a, poupando-a e não permitindo que presenciasse ou sofresse o impacto decorrente da rudeza do triste fim do vizinho...
O moleque passaria alguns anos em Porto Alegre e somente voltaria para Uruguaiana para servir ao Exército, transferido da 3ª Cia. DAM localizada em Porto Alegre, para o glorioso Quartel General da 2ª Divisão de Cavalaria de Uruguaiana onde prestou os serviços militares durante dez meses...
...Entretanto, como já se disse em tantas outras vezes, isso já é uma outra história, também com relação ao moleque e sua namoradinha que, como tudo na vida, passaram, tornaram-se adultos, e não sendo mais as crianças, tiveram suas trajetórias sempre próximas, ainda que, quem sabe nem tanto paralelas pois que por diversas vezes convergiram e se encontraram em pontos infinitos e viveram toda a grandeza e plenitude do que deveria ter sido inteiro, pela vida inteira e, sabe-se, não foi assim... ou foi?... bem se acreditarmos que o momento é a unidade do tempo incalculável para nós vis mortais (dizem os doutos que só Deus consegue calculá-lo) e pode transformar um segundo em eternidade, então é possível que o moleque e sua namoradinha tenham alcançado essa prometida eternidade, bela como a saudade (que só se tem das coisas boas vivenciadas, por isso, infeliz de quem não tem saudade), terna como um sopro de nostalgia, pura e inocente como uma criança dormindo, e que um dia poderá vir a ser contada para que todos entendam que tudo foi e continuará sendo apenas pela força do sentimento que os uniu, sem que, por ele e por isso, em tempo algum tenham prejudicado pessoas que junto com eles ou através deles, fizeram-se seus companheiros, amigos, amantes e passageiros de um mesmo veículo nessa maravilhosa aventura chamada vida!...
...Mas, como contado, tudo isso se passou no alvorecer das vidas desses personagens e quem sabe, um dia, se venha contar o que, depois e enquanto adultos, lhes teria acontecido...
* (sic).
** - Letras dos poemas citados:
- Receita de Mulher -
Vinicius de Moraes
As muito feias que me perdoem
mas beleza é fundamental. É preciso
que haja qualquer coisa de flor em tudo isto
qualquer coisa de dança, qualquer coisa de “huate couture”
em tudo isto (ou então
que a mulher se socialize elegantemente em azul como na República Popular Chinesa).
Não há meio termo possível. É preciso
que tudo isto seja belo. É preciso que súbito
tenha a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
no olhor dos homens. É preciso, absolutamente preciso
que tudo seja belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
lembrem um verso de Eluard e que se acaricie nuns braços
alguma coisa além da carne: que se os toque
como ao âmbar de uma tarde. Ah, deixa-me dizer-vos
que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
fresca (nunca úmida) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
no enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é, porém, o problema das saboneteiras; uma mulher sem saboneteiras
é como um rio sem pontes. Indispensável
que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
a mulher se alteie em cálice, e que seus seios
sejam uma expressão grego-romana, mais que gótica ou barroca
e possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de 5 velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas
e que elas sejam lisas, lisas como a pétala e coberta com suavíssima penugem
no entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
de forma que a cabeça dê por vezes a impressão
de nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
flôres sem mistérios. Pés e mãos devem conter elementos góticos.
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
a 37º centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
do 1º grau. Os olhos que sejam de preferência grandes
e de rotação pelo menos tão lenta quanto a da terra; e
que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que, se se fechar os olhos
ao abri-los ela não mais estará presente
com seus sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
e que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
o fel da dúvida. Oh, sobretudo
que ela não perca nunca, não importa em que mundo
não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
de pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
o impossível perfume; e destile sempre
o embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
de sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.
Estática
Itagiba José
Molhava os pés, distraída,
nas águas doces do açude
enquanto nelas, refletida
na mansidão, na quietude,
a inocência saltitava
Que visão! Que encanto dava
aos meus sonhos de guri...
Agora, de volta, aqui,
às águas do mesmo açude
não mais são cristalinas...
Nem a vida, que não pude
evitar de poluí-la...
Resta a imagem da menina
que nunca mais esqueci...
*** Letra da canção citada:
(1) “Caminito”, tango de Gabino Coria Peñaloza(letra) e Juan de Dios Filiberto (Música)
CAMINITO CAMINHOZINHO (versão literal)
Caminito que el tiempo ha borrado Caminhozinho que o tempo apagou
que juntos un dia nos viste pasar, que juntos um dia nos viste passar he venido por última vez, venho pela última vez,
he venido a contarte mi mal. venho contar-te meu mal
Caminito que entonces estabas Caminhozinho que então estavas
bordeado de trébol y juncos en flor bordado de plantas e juncos em flor
una sombra ya pronto serás, uma sombra prontamente serás
una sombra lo mismo que yo. uma sombra o mesmo que eu.
Desde que se fue, Desde que se foi
triste vivo yo, triste vivo eu
caminito amigo caminhozinho amigo
yo también me voy. eu também me vou.
Desde que se fue Desde que se foi
nunca más volvió, nunca mais voltou.
Seguiré sus pasos, Seguirei seus passos,
caminito, adiós. Caminhozinho, adeus.
Caminito cubierto de cardos, Caminhozinho coberto de espinhos la mano del tiempo tu huella borró; a mão do tempo teu sinal apagou yo a tu lado quisiera caer eu a teu lado quisera tombar
y que el tiempo nos mate a los dos... e que o tempo nos mate aos dois...
quarta-feira, 6 de setembro de 2017
VELHICE (LENTAMENTE)
Há uma certa nostalgia ao final do domingo porque se sabe que amanhã, segunda-feira, tudo haverá de recomeçar sem a ilusão trazida pelo fim de tarde da sexta-feira com relação ao final de semana... Acredito que aquele confunde-se com a velhice posto que esta se encaminha para o desconhecido. A propósito, o poema infra, diz do que penso sobre ela, enquanto, em seus estertores, transita em minha vida:
Lentamente, as lembranças
Amarelam pelo chão
Como folhas de outono...
Lá se vão sonhos crianças,
Entre alma e coração
Passageiros no que fomos...
Lentamente, toda saudade
Toma conta do viver
Como seiva que se esgota...
Enquanto toda ansiedade
Nocauteia o bem querer
De se ir ao antes sem volta...
Lentamente, a vela acesa,
Em estertores, a iluminar,
Projeta sombras do passado
Nelas, todas as incertezas
Do adiante, a nos matar
No nada sei, revisitado...
segunda-feira, 14 de agosto de 2017
NUNCA MAIS...
A teu pedido, nada disseram
Desde o início, ao fim,
Todos silenciaram, calaram,
Esconderam de mim...
Moleca, na pura travessura
No rosto o riso por inteiro
Do muro ao abacateiro
Em busca do fruto...
A seguir, a queda
No chão bruto,
A quebra da vértebra
Abaixo da nuca...
E a agonia...
Dos muitos dias
De hospital... até o final...
E eu não sabia...
Vaidosa, não querias
Que eu te visse assim...
Guardando viva em mim
E para sempre! em mim,
A imagem bela, da menina,
Brincando à beira do açude*
Que, não apenas da retina,
Retirar eu jamais pude... (*referência, ao poema "Estática")
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